Arquidiocese de Manaus emite nota pública em defesa da vida diante das queimadas, fumaça e calor extremo na região

A Arquidiocese de Manaus emitiu, no dia 24 de setembro, quinta-feira, uma Nota Pública manifestando profunda preocupação com o agravamento das queimadas, a presença recorrente de fumaça e as elevadas temperaturas que atingem os municípios que formam parte da Arquidiocese. O documento convoca autoridades públicas, instituições e a sociedade civil a agirem diante da crise climática e ambiental que afeta diretamente a saúde e a dignidade humana.

Fundamentada no conceito de Ecologia Integral e na Encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, a manifestação ressalta que a abordagem ecológica é também social e deve integrar a justiça nos debates ambientais. “Não podemos naturalizar um cenário em que respirar se torna um risco, em que o céu da cidade é encoberto pela fumaça”, adverte o texto assinado pelo Cardeal Leonardo Steiner, destacando que os mais vulneráveis são os mais afetados pela poluição atmosférica e pela baixa umidade.

A Igreja local enfatiza que, embora as condições climáticas facilitem a propagação do fogo, as queimadas provocadas pela ação humana não podem ser justificadas ou ter suas responsabilidades diluídas. A nota cobra uma postura proativa e preventiva do poder público: “Não basta agir quando a fumaça já chegou! É preciso atuar sobre as causas, fortalecer os mecanismos de controle e impedir que a prática das queimadas ilegais continue colocando em risco a vida humana, os territórios e a floresta”.

Testemunho, articulação e incidência profética

O documento foi elaborado pela equipe coordenadora da Comissão da Ecologia Integral da Arquidiocese de Manaus. Frei Paulo Xavier, membro da equipe coordenadora, destaca que o posicionamento reflete a identidade e a missão da Igreja na Amazônia diante das dores do povo e da criação.

“A Nota Pública faz parte da nossa caminhada como Igreja aqui na Arquidiocese de Manaus, que tem essa dimensão de ver a realidade, de assumir uma postura ética e crítica a partir da Doutrina Social da Igreja e elementos que nos ajudam a ter incidência profética, incidência política, incidência de transformação”, afirma o Frei Paulo Xavier.

Para Frei Paulo, a iniciativa vai além do discurso religioso tradicional e exige ações concretas. “Então vai nessa linha para que nós possamos fazer parte desse processo de transformação da sociedade do mundo. Não é somente falar do Evangelho, mas é testemunhar o Evangelho a partir das nossas práticas comprometidas no seguimento de Jesus”, conclui.

Somando-se à construção da nota, Diego Aguiar, coordenador de Projetos do Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (SARES) — organização-membro da Comissão da Ecologia Integral —, reforça a urgência do documento diante do sofrimento da população local.

“A Nota Pública chama atenção para a situação sufocante que estamos vivenciando. É importante que a Ecologia Integral se traduza em posturas e ações que reflitam o cuidado e a defesa da dignidade humana, da saúde, do cuidado com aqueles e aquelas que mais sofrem, com a justiça socioambiental”, aponta Diego.

Ele também convoca os fiéis das paróquias e comunidades a assumirem um papel ativo no cenário atual. “As nossas comunidades eclesiais devem ser vozes ativas na proteção do meio ambiente, no anúncio e na denúncia das queimadas que estão afetando nossa Amazônia, nossas cidades e comunidades. A crise climática nos convoca a uma verdadeira conversão ecológica integral”, finaliza.

A voz da ciência e da pesquisa também une-se à Comissão por meio de Marcela Amazonas, pesquisadora, Coordenadora Geral de Tecnologia Social do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), gerente da Incubadora do INPA e integrante da Comissão. Ela destaca o papel de vigilância e a necessidade de respostas institucionais firmes.

“Essa Nota fortalece a nossa postura de cuidado, de atenção a tudo que envolve a Casa Comum. É urgente que façamos não só voz, mas tenhamos uma nova postura diante de tanto descaso que toda a nossa região amazônica vem sofrendo. Nosso posicionamento é de solicitação que cada órgão, cada colegiado se faça atuante, vigilante, cuidador da casa comum”, declara Marcela.

Demandas urgentes às autoridades

No documento, a Arquidiocese elenca 10 solicitações fundamentais direcionadas aos governantes:

Prevenção e combate: Fortalecimento das ações de prevenção, fiscalização e combate às queimadas em todo o Estado do Amazonas.
Fiscalização focada: Intensificação das operações nos períodos de maior risco, com atenção especial às áreas identificadas como origem dos focos que afetam Manaus e a Região Metropolitana.
Punição legal: Investigação dos incêndios e queimadas ilegais, com identificação dos responsáveis e aplicação efetiva das sanções administrativas, civis e penais.
Integração de órgãos: Articulação permanente entre os órgãos municipais, estaduais e federais responsáveis pelo meio ambiente, saúde, segurança, defesa civil e fiscalização.
Monitoramento do ar: Ampliação e divulgação transparente do monitoramento da qualidade do ar na capital e nos municípios afetados.
Protocolos de proteção: Adoção de protocolos públicos específicos para os períodos de concentração crítica de fumaça e calor extremo, com foco nos grupos vulneráveis.
Rede de saúde: Fortalecimento da rede pública de saúde para atendimento e acompanhamento das pessoas afetadas pela fumaça e pelo calor.
Comunicação clara: Garantia de comunicação pública rápida, acessível e transparente sobre a qualidade do ar, riscos à saúde, origem das queimadas e medidas de proteção.
Educação ambiental: Fortalecimento das políticas permanentes de educação ambiental e prevenção de incêndios.
Planejamento climático: Elaboração e implementação de políticas públicas de médio e longo prazo capazes de preparar o Amazonas para os impactos da emergência climática.

Compromisso com a Casa Comum

Ao encerrar o pronunciamento, a nota relembra os ensinamentos da Exortação Apostólica Querida Amazônia, reforçando que a defesa da Casa Comum está diretamente ligada à defesa da vida humana, dos ecossistemas, dos povos e de suas culturas.

A Arquidiocese de Manaus conclama todas as comunidades eclesiais, organizações da sociedade civil e cidadãos a assumirem a corresponsabilidade de proteger a região. “Cuidar da Amazônia é cuidar da vida! Cuidar da Casa Comum é responsabilidade de todos e todas!”.

Na manhã desta sexta-feira (25/09), a Nota Pública foi apresentada, pela equipe da Comissão da Ecologia Integral, aos padres e participantes na Reunião do Clero, no Auditório do Centro de Formação Maromba.

Notícias relacionadas

Veja mais em Notícias relacionadas