Carne cultivada: o que as gigantes da pecuária sabem que o consumidor ainda não sabe?

Por Roberto Rivelino

Quando uma das maiores empresas de proteína animal do mundo decide investir milhões de dólares em carne produzida a partir de células, talvez a pergunta mais importante não seja se devemos ser contra ou a favor da novidade. A pergunta é outra: o que essas empresas estão enxergando no futuro da alimentação que a maioria dos consumidores ainda não perceberam?

A JBS, controladora da Friboi, entrou nesse mercado ao adquirir participação majoritária na espanhola BioTech Foods. A estratégia anunciada envolveu cerca de US$ 100 milhões em investimentos relacionados à carne cultivada, incluindo uma unidade industrial na Espanha e um centro de pesquisa no Brasil. Não estamos, portanto, diante apenas de uma experiência acadêmica.

A carne cultivada nasce de células animais multiplicadas em ambiente controlado. Não é carne vegetal e, tecnicamente, chamá-la simplesmente de “carne sintética” pode criar uma ideia equivocada sobre o processo. O objetivo da indústria é produzir tecido animal sem depender da criação e do abate de um animal inteiro, a grande questão é entender o quanto isso é saudável, e quais os reflexos dela no nosso organismo, quando for inserida no cardápio do brasileiro.

Os interesses são monetários, mas o movimento da JBS merece atenção justamente porque vem de uma companhia cuja história está profundamente ligada à pecuária tradicional. E ela não está sozinha. A BRF também já se aproximou desse mercado por meio de investimento na israelense Aleph Farms. Quando empresas estabelecidas no mercado convencional começam a colocar recursos numa tecnologia potencialmente concorrente de seu próprio negócio, há uma sinalização estratégica que não deveria passar despercebida.

Isso não significa, entretanto, que a pecuária esteja prestes a desaparecer.

Os critérios são duvidosos, talvez a tecnologia ainda enfrenta obstáculos de custo, produção em grande escala, textura, sabor, conservação, regulamentação e, principalmente, aceitação do consumidor. No Brasil, alimentos obtidos por culturas de células ou tecidos estão sujeitos às regras da Anvisa para novos alimentos e ingredientes. Também não encontramos evidência confiável de que carne cultivada esteja sendo misturada secretamente aos produtos convencionais da Friboi vendidos atualmente no país.

É justamente aí que o debate precisa abandonar os extremos, pois o importante aqui é pensar na saúde alimentar das gerações futuras.

De um lado, seria precipitado transformar cada investimento nesse setor numa teoria de que a carne tradicional está com os dias contados. De outro, seria igualmente ingênuo tratar centenas de milhões investidos pela indústria mundial como uma curiosidade sem consequências econômicas.

Se a tecnologia conseguir reduzir seus custos e conquistar o consumidor, poderá abrir uma nova disputa dentro do mercado global de proteínas. E essa transformação atingiria muito mais gente do que apenas os grandes frigoríficos. Pecuaristas, pequenos produtores, trabalhadores rurais, transportadores, fornecedores e inúmeras atividades que dependem da cadeia da carne também poderiam sentir seus efeitos.

Há ainda uma questão que merece tanta atenção quanto a própria tecnologia: quem controlará a produção dos alimentos do futuro? Será que está ligada a agenda 30? O verbo controlar é perigoso.

Só para Concluir, Talvez a carne cultivada nunca substitua completamente a pecuária tradicional. Talvez se transforme apenas em mais uma opção nas prateleiras. Ou talvez alcance uma dimensão que hoje ainda não conseguimos medir.

Mas existe um fato difícil de ignorar: algumas das maiores empresas de carne do mundo estão se preparando para esse futuro antes do consumidor.

Por isso, a discussão não deveria ser conduzida pelo medo nem pela propaganda tecnológica. O consumidor precisa saber o que está sendo desenvolvido, como será produzido, quais serão as regras de segurança e rotulagem e quais impactos econômicos poderão surgir.

A pergunta, portanto, permanece aberta: se gigantes construídas sobre a pecuária tradicional já investem no cultivo de carne a partir de células, o que elas sabem sobre o futuro da nossa alimentação que nós ainda não sabemos?

Talvez seja cedo para responder. Mas certamente já não é cedo demais para perguntar.

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