A desarmonia entre os Poderes, os conflitos institucionais e a perda de confiança da população mostram que a crise brasileira já ultrapassou a política e atingiu a própria República.
O Brasil parece ter se acostumado a viver em crise. Executivo, Legislativo e Judiciário, que deveriam ser independentes e harmônicos, transformaram Brasília num permanente campo de tensão. Divergências fazem parte da democracia. O que preocupa é quando os limites entre os Poderes começam a desaparecer e cada instituição passa a medir forças com as demais.
Os acontecimentos recentes em Brasília aumentaram essa inquietação. Questionamentos envolvendo integrantes do Supremo, reações dentro da própria Corte, pressões no Congresso e movimentações políticas mostram que já não estamos diante de simples divergências jurídicas. Quando aqueles que deveriam garantir estabilidade passam a protagonizar a instabilidade, alguma coisa está fora do lugar.
E talvez aí esteja o maior problema: a República começa a perder a confiança do cidadão. Pesquisas recentes já apontaram níveis elevados de desconfiança tanto no Congresso quanto no Supremo. Não importa, neste momento, qual Poder aparece pior colocado. O dado realmente preocupante é outro: parcela significativa da sociedade olha para suas principais instituições e simplesmente não confia nelas.
A Constituição foi clara ao estabelecer Poderes independentes e harmônicos. Independência não significa poder sem limite. Harmonia não significa silêncio ou cumplicidade. Executivo governa, Legislativo legisla e fiscaliza, Judiciário julga. Quando essas fronteiras ficam confusas, surge uma pergunta inevitável: quem fiscaliza quem fiscaliza?
Enquanto Brasília trava suas batalhas, o Brasil real continua esperando. O cidadão enfrenta hospitais lotados, violência, custo de vida elevado, impostos, desemprego e serviços públicos deficientes. Para quem está na fila de uma unidade de saúde ou tentando colocar comida dentro de casa, pouco importa a guerra de vaidades da capital federal. O que importa é ter um Estado que funcione.
Esse talvez seja o retrato mais cruel da nossa crise: Brasília discute poder enquanto o povo cobra resultado.
Uma República não começa a ruir somente quando suas instituições deixam de funcionar. O processo pode ser mais silencioso. Elas continuam abertas, autoridades continuam ocupando seus cargos, decisões continuam sendo tomadas e discursos continuam sendo pronunciados. Mas, pouco a pouco, o cidadão deixa de acreditar que aquele sistema realmente o representa.
É nesse ambiente que o Brasil chega às eleições de 2026. E talvez a pergunta mais importante das urnas não seja apenas quem será presidente, governador, senador ou deputado. O eleitor precisa perguntar: que República queremos depois da eleição?
O Brasil não precisa de um Executivo absoluto, de um Congresso desacreditado nem de um Judiciário que pareça imune a questionamentos. Precisa de Poderes fortes porque são independentes, mas respeitados porque conhecem seus limites. Precisa de transparência, equilíbrio, responsabilidade e, acima de tudo, respeito ao cidadão.
A democracia sobrevive às divergências. Sobrevive às eleições duras e até às crises políticas. O que nenhuma democracia suporta indefinidamente é a perda da confiança do seu próprio povo.
E talvez seja justamente esse o estágio mais perigoso da nossa combalida República.