Decisão contra a cúpula da Polícia Federal revela uma crise que ultrapassou os limites políticos e atingiu as instituições responsáveis por investigar e julgar
Mal terminaram os discursos e as celebrações do 7 de Setembro, e Brasília amanheceu diante de uma notícia capaz de abalar ainda mais a confiança dos brasileiros nas instituições. Nesta terça-feira, 8 de setembro, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa.
Não se trata do afastamento de servidores comuns. Andrei ocupava o comando máximo da instituição responsável por investigar corrupção, organizações criminosas e crimes envolvendo autoridades. Quando o diretor-geral da PF é retirado do cargo por decisão de um ministro do Supremo, a crise deixa de ser administrativa e passa a atingir o centro da República.
A decisão envolve relatórios de inteligência que, segundo Mendonça, teriam monitorado ilegalmente sua atuação, a do advogado-geral da União, Jorge Messias, e atividades de integrantes da própria PF. Pelo menos seis documentos teriam sido produzidos durante o mês de agosto. O ministro classificou o caso como de “superlativa gravidade” e determinou que a Corregedoria da corporação investigue a autoria, a finalidade e as circunstâncias da produção desses relatórios.
O episódio ganha contornos ainda mais explosivos porque os documentos aparecem no ambiente de confronto que envolve o ministro Alexandre de Moraes, o caso Banco Master e mensagens atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro. Mendonça sustenta que houve monitoramento indevido de sua atividade jurisdicional. Integrantes da cúpula da PF, por sua vez, consideram a decisão política e manifestaram confiança em Andrei Rodrigues.
A Segunda Turma do STF chegou a formar maioria pela manutenção do afastamento, mas o julgamento foi interrompido por um pedido de vista do ministro Gilmar Mendes. Enquanto a análise não for concluída, a medida cautelar permanece em vigor.
É necessário deixar claro que afastamento preventivo não significa condenação. As responsabilidades ainda precisam ser apuradas, e os delegados possuem direito à defesa. Entretanto, seria irresponsável tratar o caso como uma simples divergência burocrática. Se uma estrutura de inteligência foi realmente usada para acompanhar autoridades fora das finalidades legais, estamos diante de uma grave deformação do poder estatal. Se a medida judicial foi uma reação a investigações incômodas, a gravidade será igualmente enorme.
O Brasil parece ter ultrapassado a desarmonia entre os Poderes. Agora, autoridades investigam autoridades, ministros questionam delegados e decisões judiciais são recebidas como movimentos políticos. A população assiste a tudo sem saber onde termina a Justiça e onde começa a disputa pelo controle do poder.
A ironia não poderia ser maior. Um dia depois de o país celebrar sua Independência, a República acordou aprisionada em suas próprias contradições. O afastamento do diretor-geral da Polícia Federal não encerra a crise. Pelo contrário, levanta uma pergunta inquietante: quem investiga os investigadores e quem controla aqueles que deveriam controlar o poder?
A verdade precisa aparecer, sem blindagens, perseguições ou intocáveis. Caso contrário, a maior vítima dessa guerra institucional será novamente a confiança do povo brasileiro.