A República acabou: o debate silenciado

Por Roberto Rivelino

A três dias das eleições, o Brasil deveria estar discutindo propostas. Terminou discutindo decisões judiciais que contribuíram para tirar do eleitor o debate entre os candidatos à Presidência na Rede Globo. A interferência do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal alterou as condições do encontro na última hora. A democracia perdeu uma oportunidade de confronto público, e o cidadão recebeu mais uma demonstração de que Brasília decide até os limites da discussão sobre Brasília.

O TSE proibiu a exibição do púlpito vazio de Luiz Inácio Lula da Silva e perguntas dirigidas ao candidato ausente. Gilmar Mendes, no Supremo, determinou a inclusão de Renan Santos. Flávio Bolsonaro desistiu, alegando censura. Lula já havia recusado o convite. A Globo cancelou o debate, apontando insegurança jurídica e interferência indevida. Não foi uma ordem direta de cancelamento, mas uma sucessão de intervenções e desistências que terminou esvaziando o encontro.

A decisão sobre o púlpito merece uma crítica contundente: Lula escolheu não comparecer, e a intervenção judicial impediu que sua ausência fosse exposta daquela maneira. Na minha avaliação, isso produziu uma proteção política ao candidato. Quem pretende continuar governando o Brasil deve suportar o constrangimento público de suas escolhas. A Justiça não deveria poupar um presidenciável do desgaste que acompanha sua recusa ao debate.

É nesse ponto que a fiscalização passa a ser questionada como ativismo. Quando o Judiciário interfere tão profundamente no espaço de discussão eleitoral, assume responsabilidade pelas consequências. E quando o Congresso assiste acomodado, o desequilíbrio avança. A República se enfraquece sob o peso de decisões que exigem obediência, enquanto a cobrança por limites fica sem resposta.

A República acabou? Para quem vê o poder se afastar do cidadão, a pergunta já soa como denúncia. O debate silenciado tornou esse desgaste visível às vésperas da eleição. Neste domingo, cabe ao eleitor cobrar nas urnas o que faltou no palco: responsabilidade, disposição para responder perguntas e respeito ao povo brasileiro.