Bets: o governo abriu a porta e agora finge apagar o incêndio

Por Roberto Rivelino

Depois de regulamentar, autorizar e arrecadar com os jogos on-line, o governo Lula tenta transformar o sofrimento das famílias em discurso eleitoral

O salário cai na conta. Em poucas horas, o dinheiro desaparece na tela do celular.

A conta de luz fica para depois. A compra do mês diminui. O aluguel atrasa. Dentro de casa, começam as discussões, as mentiras e o desespero.

É assim que milhares de famílias brasileiras estão sendo destruídas pelas apostas on-line. Gente simples, muitas vezes iludida pela promessa de dinheiro fácil, perde o pouco que tem tentando ganhar aquilo que nunca chega.

O governo sabe disso. Mas não descobriu o problema agora.

Em 2023, no governo Lula, foi sancionada a lei que regulamentou as apostas e incluiu os jogos on-line nesse mercado. As empresas receberam autorização para funcionar, pagaram outorgas milionárias e passaram a recolher impostos.

O chamado “Jogo do Tigrinho” não foi legalizado com esse nome. Mas jogos virtuais semelhantes foram permitidos, desde que certificados e oferecidos por empresas autorizadas.

Agora, perto das eleições, o mesmo governo aparece condenando as plataformas e prometendo medidas duras contra os jogos que ajudou a colocar dentro da legalidade.

Não é possível ignorar a contradição.

O governo abriu a porta, cobrou para deixar entrar e agora quer posar de herói porque a casa está pegando fogo.

Combater o vício é necessário. Restringir propagandas enganosas também. Proteger crianças, aposentados, trabalhadores e beneficiários de programas sociais é obrigação do Estado.

Mas por que somente agora?

Quantas famílias precisaram perder tudo para o governo perceber a gravidade do problema? Quantos pais deixaram de pagar contas? Quantas mães viram o dinheiro da alimentação desaparecer? Quantos jovens foram atraídos por influenciadores que exibiam uma riqueza quase sempre impossível para o apostador comum?

A indignação presidencial chega tarde. E chega em pleno período eleitoral.

A suspeita de medida eleitoreira aumenta quando se discute proibir cassinos virtuais, como o “Tigrinho”, mas preservar as apostas esportivas e os patrocínios aos clubes de futebol.

Se a preocupação é realmente com o povo, qual é a diferença entre perder o salário apostando num desenho que gira na tela e perder o mesmo salário tentando acertar o resultado de uma partida?

A dor da família é a mesma.

O governo parece querer escolher qual jogo será condenado e qual continuará rendendo dinheiro, impostos, publicidade e patrocínios.

Também se fala em aumentar a cobrança de impostos sobre as empresas. Mas imposto maior não cura dependência. Não devolve o salário perdido. Não recupera o casamento destruído. Não coloca comida novamente na mesa.

Se o jogo faz mal ao povo, deve ser enfrentado com seriedade. Se pode continuar funcionando, o governo precisa explicar por que passou tanto tempo arrecadando enquanto milhões de brasileiros eram bombardeados por propagandas de dinheiro fácil.

O povo não pode ser usado três vezes: primeiro como apostador, depois como fonte de arrecadação e, por último, como eleitor.

Essa é a parte mais cruel.

As pessoas foram atraídas, perderam dinheiro e agora recebem uma promessa de salvação justamente daqueles que regulamentaram o mercado. Tentam transformar vítimas em massa de manobra e sofrimento em propaganda eleitoral.

O brasileiro precisa abrir os olhos.

Não existe dinheiro fácil. A plataforma sempre joga para ganhar. E, na política, também existe gente apostando na falta de memória da população.

O governo pode até tentar apagar o incêndio. Mas não pode esconder que ajudou a abrir a porta por onde o fogo entrou.

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