Por Roberto Rivelino
O Brasil está mergulhado na crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal, nos conflitos entre os poderes e na corrida presidencial. Brasília ocupa o noticiário diariamente. Enquanto isso, uma ameaça de proporções mundiais avança quase fora do campo de visão da população.
O Oriente Médio enfrenta uma nova escalada. Ataques atingiram instalações e rotas estratégicas de petróleo. Embarques foram interrompidos ou desviados. O Estreito de Ormuz e o Mar Vermelho, fundamentais para o comércio mundial de energia, voltaram a ser áreas de alto risco.
O petróleo Brent já ultrapassou os 100 dólares por barril. Em 18 de setembro, era negociado próximo de US$ 104, pressionado pelos ataques à infraestrutura saudita e pelas dificuldades nas rotas de transporte. A situação continua instável. “Reuters” (https://www.reuters.com/business/energy/oil-prices-fall-1-hopes-limited-supply-disruptions-2026-09-18/).
No Brasil, o assunto ainda recebe pouca atenção. A crise do STF e a antecipação da disputa presidencial funcionam, mesmo que não intencionalmente, como uma enorme cortina de fumaça. O país discute decisões judiciais, candidatos e confrontos institucionais, mas quase não debate os efeitos da crise energética sobre a vida real.
Se o petróleo permanece caro, o diesel sofre pressão. Com o diesel mais alto, sobem o frete, a produção agrícola e a distribuição. O impacto chega aos alimentos, medicamentos, fertilizantes, plásticos e produtos de limpeza.
Ainda seria alarmismo afirmar que haverá desabastecimento generalizado. O risco mais próximo é outro: preços mais altos, perda do poder de compra e falta pontual de determinados produtos.
Existe, porém, um dado que precisa ser explicado. O preço dos combustíveis não está sendo contido apenas por decisões comerciais da Petrobras. Em 2026, o governo federal abriu aproximadamente R$ 27,1 bilhões em créditos extraordinários para amortecer o aumento da gasolina e, principalmente, do diesel. Até 31 de agosto, cerca de R$ 7,79 bilhões haviam sido pagos em subvenções a produtores e importadores. Também houve redução de tributos federais. “Levantamento publicado pelo UOL” (https://www.uol.com.br/carros/colunas/paula-gama/2026/09/12/governo-ja-abriu-r-27-bi-em-creditos-pra-segurar-gasolina-e-diesel-em-2026.ghtm).
Portanto, o consumidor ainda não recebe todo o impacto do mercado internacional. Mas a conta não desapareceu. Foi transferida para o Tesouro Nacional e, no final, será paga pelo contribuinte.
Não há prova suficiente para afirmar que essa política tenha sido criada exclusivamente com finalidade eleitoral. Entretanto, é impossível ignorar o momento político. Combustível caro aumenta a inflação, desgasta o governo e influencia diretamente o eleitor.
A pergunta necessária é: o que acontecerá depois das eleições, quando os subsídios forem reduzidos, o orçamento não comportar novas despesas ou o petróleo continuar subindo?
O risco é o brasileiro votar sob uma sensação temporária de estabilidade e receber a verdadeira conta depois das urnas.
O Brasil produz petróleo e alimentos, mas ainda depende de derivados importados, fertilizantes e transporte rodoviário. No Amazonas, onde muitas mercadorias percorrem milhares de quilômetros antes de chegar ao consumidor, qualquer aumento do frete pesa ainda mais.
A crise do STF é grave. A instabilidade política também. Mas nenhuma delas pode impedir o país de enxergar a tempestade econômica que se forma no exterior.
Ainda não se pode anunciar um desabastecimento nacional. Pode-se, contudo, alertar para combustíveis mais caros, inflação dos alimentos e dificuldades pontuais de oferta, caso o conflito se prolongue.
A população precisa conhecer esse risco antes das eleições, e não depois delas. Cortinas de fumaça escondem a crise por algum tempo. Não impedem que a conta chegue.