Tudo está às claras nos Três Poderes

O Brasil já não precisa de cortinas abertas para enxergar o que acontece nos bastidores do poder. Tudo está às claras. As negociações, os interesses, as omissões e os acordos de conveniência desfilam diante da população como cenas de um espetáculo perverso. O cidadão assiste, indignado, ao show de horrores em que se transformou parte da vida pública nacional.

A Constituição estabelece que os Poderes da República devem ser independentes e harmônicos entre si. Entretanto, a harmonia que o brasileiro percebe nem sempre parece voltada à defesa da democracia ou ao interesse coletivo. Em muitos momentos, Executivo, Legislativo e Judiciário aparentam falar a mesma língua quando precisam proteger seus espaços, preservar privilégios ou evitar que determinados escândalos avancem.

Quando interessa, surgem discursos inflamados sobre democracia, instituições e responsabilidade pública. Quando a denúncia alcança os poderosos, aparecem o silêncio, a lentidão e a conveniência. Um Poder observa o outro, conhece os excessos praticados e, mesmo assim, frequentemente prefere não agir. Estabelece-se uma espécie de equilíbrio sustentado não pela fiscalização, mas pela tolerância recíproca.

Tudo acontece diante dos nossos olhos. As denúncias aparecem, os indícios são divulgados, os personagens são conhecidos e as contradições ficam expostas. Ainda assim, poucas respostas concretas chegam à sociedade. O problema já não é a falta de informação. É a sensação de que aquilo que deveria causar espanto passou a fazer parte da rotina nacional.

Nesse cenário, o povo foi reduzido a espectador de menor importância. Assiste ao filme de terror antidemocrático, paga o ingresso por meio de impostos cada vez mais pesados e ainda sofre as consequências de decisões tomadas longe das suas necessidades. Aqueles que deveriam servir passaram, em muitos casos, a esperar que a sociedade os sirva.

A própria expressão “servidor público” revela a natureza da função. Quem ocupa um cargo no Executivo, no Legislativo ou no Judiciário está ali para servir à população. Não para ser servido. Não para transformar o Estado em instrumento de proteção pessoal, partidária ou corporativa.

O Estado não existe por vontade própria. Ele existe porque há cidadãos que trabalham, produzem, pagam impostos e sustentam toda a estrutura pública. Quando essa lógica é invertida, a República deixa de representar o povo e passa a funcionar como uma engrenagem voltada para a preservação daqueles que controlam o poder.

O mais grave é que quase nada disso parece escondido. Está tudo às claras. E talvez seja justamente essa exposição sem constrangimento que torne o momento ainda mais preocupante. Quando os poderosos deixam de temer a reação da sociedade, o escândalo já não precisa mais das sombras.

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